13.12.09

AXE EFFECT 2

A prova de que o AXE effect existe...











12.11.09

AXE EFFECT

Foi um dia que começou com ratos debaixo da cama. A alvorada também não abonou a favor, as 6 da manhã pesavam-me no corpo e só me lembro de me arrastar atrás do David e de Sahni até ao rio. Pelo caminho fomos apresentados ao veado mascote da vila: Cookies, que por sinal gostou de David.

A mim não me era permitido banhar sem o sarong, portanto sentei-me no pontão a vê-los. Senti-me enganada pela minha condição de mulher, quase revoltada pela falta de liberdade que elas têm por esta parte do mundo. Quis gritar ao mundo que também queria tomar banho, mas simplesmente baixei a cabeça submissivamente como que envergonhada por tal pensamento e ciente das regras a que me tinha submetido.

Neste preciso momento fui interrompida por um ruído estranho, o que via deixou-me de boca escancarada. Cookies aventurava-se pela lama. Sahni ria-se: - Cookies wants a bath. You, very lucky, first time I see Cookies having bath with foreigner. Very lucky, first time!

Ela, como já devem ter percebido era ´A´ veado, descia a margem lamacenta enterrada até ao pescoço e agora também vos cairá o queixo, isto porque vinha simplesmente atraída por David. Arrastou-se até ele e não descansou enquanto não foi mimada e acariciada pelo próprio. Tomou banho com ele e voltou a terra. A minha alma estava parva, isto diria eu, que era um caso clássico ou bicudo dada a diferença de ... idades... duma bela história de am..., digo, atracção.

Hoje posso adiantar a minha teoria que este poder de atracção não se devia apenas ao facto do David ser um espécime masculino muito bem parecido mas também a um fenómeno que dá pelo nome de efeito AXE. Ora este efeito tem sido divulgado pelos meios de comunicação social através de divertidos anúncios aos quais as mulheres até podem torcer o nariz, como quem: - E vão os Srs. acreditar nisto!!!

Confesso que não resisiti a tirar fotos e fiz um pequeno filme para comprovar o fenómeno e quem sabe os senhores do AXE não o quererão usar para um novo spot publicitário. Isto é a prova do que é que uma mulher é capaz por um homem e de que realmente ´The Axe Effect exists´.

É verdade, agora os leitores masculinos leiam com atenção porque a informação que vos irei dar provavelmente será a mais importante que alguma vez receberam na vida. O género feminino é muito sensível a homens cheirosos, e isto serve tanto para o bem e para o mal. Portanto se cheirarem bem são uns pontos a vosso favor, se cheirarem mal é vê-las a milhas. Tão simples quanto isto!

Agora o AXE, desconfio que tenha na composição umas feromonas quaisquer que realmente ajuda a despertar muitas emoções no género feminino seja ele de que espécie animal fôr. Como podem ver independemente do que aleguem ´against animal testing´acho que ninguém imaginaria que o efeito AXE poderia realmente ser comprovado pela veado COOKIES.

P.s. Embora ainda nómada, prometo que vou ver se encontro nas minhas caixas a verdadeira confirmação da existência de tal fenómeno para ilustrar a minha teoria.

11.11.09

PERFECT DAY

4 meses depois e muitas falhadas tentativas num blog que teima em ser escrito tenho dificuldade em descrever este dia. Tenho a sensação que de que o que pode ser perfeito para mim será banal para muitos e perde-se o momentum de algo que ficou. O medo de alguém desmoronar um castelo que eu achava que fosse de pedra mas revela-se arenoso.

Foi um dia perfeito. Sinto-o e lembro-me dele como se fosse ontem. Dei por mim a escrever: um dia perfeito é aquele que tinha tudo para dar errado, mas depois apaguei. Um dia perfeito é aquele que nos apanha de surpresa; perfeito porque nos sentimos enganados por ninguém ter anunciado a sua presença, como uma visita que surge sem avisar. Também apaguei...

Ainda hoje é-me difícil descrever o porquê desta afirmação. Um dia perfeito é talvez um dia consciente. Conscientes do momento, do nosso eu, da nossa felicidade. E não porque existem as condições ideais, mas absolutamente pelo contrário, porque não existe nada que à partida podia condicionar tal perfeição.

Um dia perfeito exige calma e descontracção a descrevê-lo e temo que ultimamente isso não fez parte do meu vocabulário pessoal. Um dia perfeito para mim é aquele que poderá ser descrito como a história interminável ou então em mini-posts como os meus assíduos leitores me pediram. Assim sendo passo a contar as primeiras horas deste dia, ao que chamarei de AXE EFFECT...

Embora bem longe desse dia, mais precisamente em dia de S. Martinho, tenho a dizer que é bom estar de volta ao histórias. A todos, bem haja.

11.9.09

HOME STAY

- So this is the list of activities you can make and these are the rules!

Comecei a ler a lista de regras. Eu e o David cruzámos olhares... Não era nada do que estávamos à espera, para dizer a verdade, nem sei bem o que estava à espera, mas de certeza que não era algo assim. Isto mais parecia um 'acampamento militar' com uma lista desde a não poder usar alças ou saias acima do joelho ou aceitar a comida com a mão esquerda... Olhei de novo para o David, confusa...

- I have to read the rules again, I'm sure I'll forget half of them! Ri-me. - Well, acrescentou, we don't need to stay 2 nights, maybe we just stay 1 night. Ok, aqui percebi que sentíamos o mesmo...

Tentei quebrar o silêncio e não resisti a acrescentar: - I'm sure you are thinking you wish you had brought John instead of me! Isto veio a propósito dum personagem que o David conheceu antes de nos trazerem para Mescot. - The most interesting person I've ever met! The guy has been sailing for the past 5 years on a boat, his stories are amazing! Assim que acabou a frase, olhou para mim e julgo que se arrependeu do que disse. Levantei o sobrolho. - I see... I wouldn't have guessed, David! Riu-se.

Levaram-nos até à casa de acolhimento. Era do professor da vila e ficava em pleno campus escolar. Sunny não se encontrava em casa, portanto fomos recebidos por Mirna, a filha mais velha, que fez as honras da casa. Dos seus 12 anos, uns olhos brilhantes e inteligentes, mirava-nos de alto a baixo. Apresentou-se delicadamente e com um sorriso de ponta a ponta, bombardeou-nos com perguntas. De onde éramos, de onde vínhamos, quanto tempo ficávamos... - Are you friends? David riu-se. - Yes, very good friends! We've just met 3 days ago, but very good friends! Mandou-nos sentar e esperar o dono da casa.

Mirna continuou a ver televisão, até que às páginas tantas, adiantou: - Would you like to use internet? Juro que me caiu o queixo. Metade da comunicação com o David limitava-se a olhares. Tal como ele estava completamente perplexa. Desta não estava à espera, achávamos nós que estávamos no meio duma vila da selva e completamente fora do mundo.

Fomos chamados para o jantar, Sunny encontrava-se numa viagem e chegaria mais tarde. Sentámo-nos à mesa, Mirna sentou-se connosco e Meya, a mãe, serviu-nos o jantar. Não se quis sentar à mesa. Procurávamos os talheres quando Mirna começa a servir-se e a comer com as mãos. Dei um pontapé debaixo da mesa ao David: - Hey, remember the rule of the right hand? We are in a muslim house, that's why. It is all coming back to me!!! They eat with their hands. David abriu os olhos côr de mar. - Ah, you are right! So how do you eat with your hands? If my mum saw me now she would go bananas!!! Rimo-nos. Escusado será dizer que foi uma aventura a nossa refeição. Tanto um como o outro debatia-nos em levar à boca os grãos de arroz e a carne sem deixarmos cair no prato. Mirna ensinávamo-nos como fazer bolinhos de arroz e molhar no molho para ser mais fácil. Confesso que lá para o fim já tínhamos apanhado o jeito. Mas esta não seria a única surpresa do dia...

Sunny chegou entretanto, explicou que era professor de inglês e que andava a fazer um curso para dar níveis mais avançados, isso implicava estar às vezes 2 semanas fora e viajar 6 horas até KK. Alya, a bebé de 1 ano, pulava de alegria ao ver o pai, e subia em tudo o que era cadeira para chegar mais perto dele. Sunny desculpou-se, estava exausto. David pediu se podia tomar banho. Sunny coçou a cabeça e disse que sim, que lhe ia mostrar onde era, mas que se nós quiséssemos que nos levaria no dia seguinte ao rio para tomarmos aí banho. Era aqui que normalmente os habitantes iam. Chamar-nos-ia às 6 da manhã, para podermos tomar o pequeno-almoço às 7 e ele poder estar na aula às 7.30. Aqui, até engoli em seco com a perspectiva de tal alvorada. Perguntou-me se tinha sarong. Voltou a coçar a cabeça perante a resposta negativa. Perante tal, disse-lhe que não haveria problema ou arranjaria uma forma ou ia só acompanhar... Sorriu e despediu-se.

Minutos depois aparece David bem cheiroso mas com um ar desconcertado... - What's wrong? - perguntei. - Well, there is a bathroom. Very nice. There you have the toilet and you can have a shower, but it's the same as in the jungle. There's no running water, so you have the bucket scheme again... ah, and by the way, there's no toilet paper. Fiquei estática, os meus fusíveis entraram em curto-circuito. - David, there's not going to be toilet paper. That's why you are supposed to accept food with your right hand. The left is... to clean.
O David completamente lívido, procurava em mim respostas, às quais eu preferia não responder... Soltei uma gargalhada nervosa... - Oh, dear... This is just the beginning, I have a feeling...

Como era de se esperar isto era apenas o início. Às 5 da manhã, acordei de sobressalto. Abri os olhos e tentei perceber o porquê de tamanha despertina. Ouvia guinchos de animais, mas isto não eram bichos quaisquer... Eram... ratos!!! E parecia que vinham debaixo da cama. Com o coração aos pulos, chamei pelo David. Este teimou em abrir os olhos, mas acho que o meu ar de desespero foi mais convincente. - What now? Expliquei o que se passava. David sentou-se na cama, com o ar mais sério deste mundo e levantou-se. - Ok, I'm going to do speak to them! It's outrageous they are partying at this hour in the morning!!! Pois, realmente, depois de tanta bicharada, era derrotada por uns meros ratinhos. Pensei para mim. - Well, definitely not Jane, but you? Tarzan!
Não pude deixar de rir ao ver o David a investigar as feras debaixo da cama...

20.8.09

ME?... JANE!... YOU?

Por esta altura já tinha passado uma semana que viajava a solo. Uma pessoa já bem diferente que a Prainha que entrou no avião. Mais confiante, mais desenrascada, mais calma. Em paz julgo até, absolutamente zén.

Mas por esta altura porém voltava de novo à estaca zero. Para a selva sem conhecer ninguém implicaria passar de novo pelo desafio de fazer amigos. Não foi difícil, muito pelo contrário, o contexto era absolutamente familiar e eu pela primeira vez na viagem senti-me completamente relaxada.

Na 'Commonwealth' senti-me parte duma grande família que viajava em conjunto, factor completamente inesperado nesta minha odisseia. Do grupo tenho as melhores memórias e a diferença de idades, de cultura e de backgrounds combinado com o contacto com a natureza fez da selva uma experiência memorável.

Lexie adoptou-me como uma irmã mais velha. Muito senhora de si, embora com os seus modestos 10 anos, falávamos de moda e das férias. Pam e eu rimo-nos ao apercebermo-nos que Lexie descrevia as pessoas pela roupa que usavam e não por características físicas, facto explicado por a mãe ser consultora de cor e moda.

Lisa viajava com os filhos Will e Lexie numa volta ao mundo em 100 dias, uma forma diferente de passar as férias do Verão. Tinham começado há uma semana em São Francisco e agora era a primeira paragem na Ásia. Depois disso a lista era interminável desde a Índia ao Zanzibar e Lexie e Will já tinham histórias para contar.

Pam e Dev contavam-nos curiosidades da selva. Dev, como médico, era conhecido no acampamento, e por isso tinha 'tratamento especial'. No barco íamos sempre um pouco mais longe no rio.

David também se encontrava de férias e não numa grande viagem como parte dos viajantes que conheci. Sempre bem disposto e relaxado, atitude bem australiana, contagiava toda a gente com a sua boa disposição.
- I'm jewish! Silêncio absoluto... Para ser logo bombardeado com milhares de perguntas sobre o assunto, proporcionando conversas bem interessantes na 'commonwealth'. Os avós tinham escapado ao holocausto e a história de família era digna de mais um filme de Spielberg.

Dele lembro-me também de outros episódios que só um aussie podia proporcionar. David determinado no seu conhecimento da fauna selvagem, pôs todo um barco em alvoroço quando viu uma cobra na água: - Look, there's a snake, there!!! com o ar mais confiante deste mundo, para segundos mais tarde vermos o resto do corpo e das patas de pássaro. Ainda hoje Lexie e Will riem-se disso.

Ou então da 'Piss Stop' quando David resolve pedir para parar o barco. - Sorry, I need to go. This sound of water just makes me want to go! Parámos e David e Will saem a correr pela lama desesperados. E nós por outro lado a esbracejar a afastar o segundo barco que se aproximava para ver também a nossa descoberta de 'fauna selvagem'.

Eu por outro lado também dei azo a mais um dos meus episódios prainhescos que foram o delírio dos miúdos. Numa expedição nocturna pela selva, eu seguia atrás, uma natural born Jane, confiante, totalmente equipada com a minha lanterna na cabeça, preparada para enfrentar a bicharada.

Enquanto o guia nos chamava ver um animal meio aranha meio gafanhoto, eu debatia-me com uma libelinha atraída pela luz da minha lanterna que teimava em pousar na minha cara. Nisto a Lexie vendo a minha luta desata-se a rir, para logo começar também a fugir quando a libélula decide ir atrás dela. A bela da libélula apanha o Will no caminho, que por sua vez numa fuga audaciosa, escorrega na lama e cai de quatro.

Agora imaginem o David e a Lisa super interessados no gafanhoto e eu em background como o terceiro adulto da expedição aos pulinhos, tipicamente cena de desenho animado. Escusado será dizer que não vi o ser mais emocionante e estranho da selva e David e Lisa não acharam muita graça por terem sido distraídos deste jeito...

Por esta altura eu e o David tornámo-nos quase inseparáveis, de idades muito próximas e com uma forma muito semelhante de ver a vida, parecia que nos conhecíamos há já algum tempo. Também ele viajante de alma, tinha um grande apreço por África onde tinha nascido e estado até aos 6 anos. Num safari uns anos antes tinha sobrevivido à picada dum escorpião e o animal favorito era o leão, tal como o meu... E verdade seja dito era impossível ninguém se sentir completamente relaxado perante David.

- I'm thinking of doing a home stay around here.
- What's that? perguntava eu. Explicou-me que gostaria de ficar uns dias em casa duma família local, onde aprenderia os costumes e viveria como um malaio. - So I was wondering if you'd like to join me! At least I'll have someone to talk to... Confesso que perante tal proposta, na minha cabeça entre a intensidade dos últimos dias, quase que me saía tal pensamento: - Me? Jane!... You?... Tarzan? Limitei-me a sorrir e a acenar que sim.

3.8.09

THE JUNGLE BOOK

Entrei na carrinha. À minha frente, David, que também viajava sozinho fazia-me as habituais perguntas. Pam ouvindo a nossa conversa não resistiu. Os olhos brilhavam ao ouvir o sotaque australiano de David. Também ela Ozzie, tinha deixado Perth há 30 anos atrás por amor. Casada com Dev, que também viajava connosco, viviam em KK desde então.

Da carrinha passámos para um 4 x 4 para entrar na selva e mais tarde já no rio apanhámos finalmente o barco que nos levaria ao acampamento em pleno Kinabatangan. Aqui separámo-nos em 2 grupos, ou seja, 2 barcos.

Eu, ironicamente, pertencia ao grupo da Commonwealth como lhe chamariam mais tarde. Ainda refutei pela minha nacionalidade mas fui unanimamente aceite pela minha condição de Londrina. Do grupo faziam parte Dev e Pam, Lisa e os filhos, Lexie e William, Maggie e o filho, Saj (amigos de Pam e Dev) e eu. Mais tarde conseguimos 'raptar' o Dave.

Verdade seja dita, com a Commonwealth senti-me mais em casa do que com o resto dos 'Europeus'. Dos 'outros' tenho vagas memórias, um casal de alemães, seres mais entediantes e um grupo de italianos, que à parte de se ouvirem por todo o lado e afugentarem a bicharada, não me suscitaram o menor apreço.

Mas voltando à Selva, imaginem o Pantanal Brasileiro, a Amazónia. Agora tirem-lhe as onças e as piranhas, adicionem-lhe uma macacada e uns elefantes pigmeus e temos Kinabatangan. Os elefantes é quase mito 'selvagem', mas a macacada é um catálogo de colecção. Colecção de Outono: Gibons; Inverno: Orangotangos; Primavera - Proboscis; e Verão - Macaques com cauda e sem cauda.

Ver toda esta fauna no habitat natural, assistir aos saltos acrobáticos dos macacos, os olhares desconfiados para com os invasores e o sorriso deliciado dum orangotango a devorar uma fruta, é qualquer coisa que não tem comparação. Ouvir os gritos da selva, as cigarras e os lagartos, evitarmos razias de libelinhas, vermos pousar as borboletas, escondermo-nos dentro das árvores, vermos crocodilos bebés e macacos a pescar, corujas e pássaros tropicais, redes em árvores gigantes; são tudo memórias que guardo destes 3 dias. Viagens de barco nocturnas em que com holofotes os nossos guias conseguiam distinguir os olhos de anfíbeos no outro lado da margem do rio, outras expedições de barco pelas 5h30 da manhã para ver a alvorada da bicharada.

Se na primeira noite tudo me parecia estranho, 12 hrs depois sentia-me completamente em casa: uma verdadeira 'Jane da Selva'. Incrível como o nosso corpo e mente se adaptam a qualquer condição que à partida nos possa parecer mais adversa. Se a falta de água corrente no princípio fez-me levantar o sobrolho e a casa-de-banho, ainda hoje sorrio ao pensar nos banhos de balde da água do rio e da sensação de frescura e satisfação.

'This is not exactly the Hilton' já anunciava o Uncle Tan no seu website: e sim um colchão no chão, um mosquiteiro e um telhado sobre a cabeça não é propriamente o meu conceito de Hilton também, mas no Hilton não nos deitamos com os pirilampos e acordamos com a natureza, somos surpreendidos por macacos e ouvimos as rãs a saltar no charco.

A Selva ensinou-me muitas coisas, que não só consegui ultrapassar o nível 3 da minha aventura com uma perna às costas, que convivo bem com os bichos e que me dou muito bem na situação de 'back to basics', porque para dizer a verdade, por esta altura nem dei conta da falta da manta nem do saco cama.


p.s. Dedico este post à Rita que deixou Londres e a quem prometi que acabava a minha pequena aventura. A ela como aos demais leitores, que desconfio que a esta altura já estejam reduzidos a 2 alminhas, as minhas desculpas por tão prolongada ausência...
Para compensar imagens para encher o olho e não só...






















14.7.09

SEPILOK

A pedido de muitas famílias e fãs desesperados por terem sido deixados nesta ansiedade de cenas de próximos capítulos, continuo o relato de tão falada viagem. A verdade é que a blogueira precisa de férias e descanso, mas pronto, faço-vos o favor que é para que não digam que eu nunca vos dei nada...

Ora bem, estávamos na descida do Kinabalu. Chegadas cá abaixo, e depois de mais uma refeição, acho que nunca comi tanto com tão pouco intervalo entre refeições, chegava a hora de nos separarmos. Tina voltava para KK, Jackie ficava no Kinabalu, eu seguia para Sepilok e Charlotte ainda estava na dúvida se ia para Sandhakan, se ficava.

Despedi-me e fui para a paragem do autocarro. Charlotte tinha-se decidido finalmente. Entre a perspectiva de chegar de noite a uma cidade em que não tinha reservas nem referências ou ir com alguém que pelo menos saberia onde ficar, decidiu-se pela última. Esse alguém era eu, surpreendemente, e ela propôs-se a acompanhar-me.

Esperámos e esperámos, até aparecer o autocarro... Levantámo-nos, esbracejámos e... continuou... sem parar. Respirámos fundo e voltámos a esperar... até aparecer o segundo autocarro... Levantámo-nos, esbracejámos e... mais uma vez continuou... sem parar. Começámos a ficar impacientes e desta vez já nem nos sentámos... apareceu o terceiro autocarro... Levantámo-nos, esbracejámos, saltámos, implorámos e... continuou... até parar uns metros mais tarde... Corremos prontamente para a porta. Um rapaz dos seus 18 anos saiu e explicou-nos que não podia levar-nos, estavam lotados. Como estavam lotados? Propôs-nos ir em pé... Aceitámos. Como diriam os ingleses, 'desesperate moments require desperate measures'...

A perspectiva de ir 5 horas em pé não era propriamente aliciante mas entre ficar ali e esperar mais 6 horas pelo próximo autocarro, venha o diabo e escolha. E o diabo escolheu... Fomos, o condutor sorriu e prontificou-se a dar-nos umas almofadinhas para nos sentarmos junto a ele, onde também já ia outra viajante nas mesmas condições. Ela por sua vez ainda viajava com um coelho. Portanto, recapitulando, na frente encavalitados junto ao condutor era eu, a Charlotte, a Malaia, o coelho e o rapaz de 18 anos. Charlote sentou-se nos degraus junto à porta e eu entre a malaia e a porta, de frente para a estrada. As duas, estrangeiras, destoávamos naquela camioneta e o condutor sorria mostrando os poucos dentes para os camaradas, perante a perspectiva de duas cabeleiras louras no lugar da frente.

Dessas 5 horas lembro-me do percurso de montanha, curvas sinuosas, ultrapassagens perigosas mas eu nem pestanejei. O rapaz de 18 anos passou a condutor e julgo que estaria a praticar as ultrapassagens, não vi a vida por um fio, porque sou gata e tenho 9 vidas... 5 vidas por esta altura... Da paisagem, uma vegetação exuberante, campos de palma, lembro-me também do verde que não tinha fim e da estrada estreita que teimava em desbravar tal floresta. Lembro-me de sentir absolutamente tranquila, não sei se anestesiada do esforço físico desse dia, se da adrenalina, se apenas da sensação de vencedora da qual enchi os pulmões aquando no topo do mundo.

Entre algumas paragens e o tão esperado esvaziamento da camioneta deram-nos lugar de gente por uma meia hora. Chegámos finalmente à milha 8, paragem que me garantia a chegada ao destino. Sepilok, se chamava, mais conhecido pela existência dum Santuário de Orangotangos da WWF, onde não fui. Para mim, para além dos orangotangos, era ponto de partida para a minha aventura seguinte, desculpem, nível 3 - a SELVA.

Fiquei pouco mais de 12 horas por aqui, de entre as quais tirei 8h para dormir. Eu e Charlotte relaxámos e levámos as coisas com calma. Ela decidiu-se ficar por Sepilok e ir ver os bichos. Eu tinha de partir para outra e finalmente despedimo-nos. A partir daqui estava outra vez sozinha: eu e mais eu... No entanto senti que desta vez era diferente.

Enquanto fazia check-in e preparava as coisas para levar para o acampamento eis que chegam Yilmaz e Heidi. Senti-me em casa, engraçado que para quem me via, achava que eu era a pessoa mais sociável de Sabbah, ainda agora tinha chegado e já tinha encontrado amigos. Almoçámos juntos e trocámos impressões. Eles acabavam de chegar da Selva, tínhamo-nos cruzado por um acaso...


Chegava finalmente a minha hora, despedi-me. Yilmaz olhou para mim e abraçou-me espontaneamente. Desejava-me sorte e pedia-me notícias. Esta manifestação anormal dum alemão revelou-se desastrosa, uma vez que meia abananada, só dei conta mais tarde quando cheguei ao acampamento da selva, que me tinha esquecido da manta e do saco cama...